14 agosto 2006

Feiras e Exposições

Ao contrário das outras postagens do blog, não escrevo sobre um rótulo específico, mas sim sobre acontecimentos. Nesta época do ano, pico do consumo anual de vinho, pipocam aqui em Porto Alegre as chamadas feiras. Estes eventos nada mais são exposições onde, a pretexto de vender seus produtos a preços mais acessíveis, as grandes redes de supermercados da capital reúnem em um só lugar, os mesmos títulos disponíveis no interior de suas lojas, geralmente com o mesmo preço de sempre e com atendentes roboticamente treinados para dizer aos visitantes que os rótulos expostos estão temporariamente em promoção.

Já não me causa espanto a naturalidade com que os "expositores", partindo do princípio de que o público que lá está não entende nada sobre o assunto, destilam as duas ou três frases decoradas sobre cada rótulo. Também não me surpreende a passividade e hipocrisia do público que aceita passivamente o jogral a ele recitado, concordando com tudo e memorizando para mais tarde repetí-lo, a fim de demonstrar o seu “conhecimento” a familiares ou colegas de trabalho. O que me gera indignação é que os preços são manipulados dentro de uma mesma edição do evento, de um dia para o outro, a bel prazer dos "expositores", e ninguém diz nada, pois isso não faz parte da boa etiqueta.

Em uma das grandes feiras da capital – não vou dizer especificamente o local, apenas direi que foi na zona norte, perto do Iguatemi – no final do evento, se vendia o mesmo rótulo 50% mais caro do que o praticado no início do evento, duas semanas antes. Garrafas de Terrazas Reserva pularam de R$ 45,00 para R$ 65,00 na maior cara de pau, apenas para dar um exemplo. Sem contar o grande número de rótulos simplesmente tirados de venda sem maiores explicações e a desculpa fiada dos “expositores” de que é para aproveitar o preço especial para o evento.

Uma exceção foi o evento realizado no fim de maio na Usina do Gasômetro, contando apenas com expositores locais. Em que pese a qualidade (discutível) das vinícolas presentes, era possível encontrar algumas boas ofertas. Eventos como estes deveriam se repetir com mais freqüência em Porto Alegre.

Rapidinhas




Vinho: Lovara Cabernet Sauvignon
Empresa: Lovara Vinhos Finos Ltda. - http://www.lovara.com.br
País: Brasil
Safra: 2004
Preço: entre R$ 19,00 e 25,00

Conceito pessoal: entre duas e três estrelas

Pequena vinícola da Serra Gaúcha, esta tradicional vinícola vem apresentando progressos significativos em sua produção. Este impulso se viu muito mais acentuado após a aliança de comercialização e distribuição de seus produtos pela gigante Miolo. O vinho é suave, necessitando ainda um pouco mais de maturação na garrafa. Boa opção para quem quer um vinho de qualidade para o dia-a-dia.

Vinho: Gran Reserva Tarapacá
Empresa: Viña Tarapacá Ex Zavala - http://www.tarapaca.cl
País: Chile
Uva: Cabernet Sauvignon
Safra: 2001
Preço: entre R$ 39,00 e 50,00

Conceito pessoal: quatro estrelas

Vinho tradicional. Campeão de vendas e ótimo custo-benefício. Bebido em uma noite fria, acompanhando um espinhaço de ovelha feito em panela de ferro, numa excepcional combinação. Corpo forte e sabor marcante, resultado da excelente safra chilena de 2001. Armazenamento na medida exata. Restam ainda poucas garrafas desta safra em comercialização.

01 agosto 2006

Pequeno Notável

Vinho: Vallontano
Empresa: Vallontano Vinhos Nobres Ltda - http://www.vallontano.com.br
País: Brasil
Uva: Merlot
Safra: 2002
Preço: entre R$ 17,00 e 22,00
Conceito pessoal: entre três e quatro estrelas


A vinicultura brasileira ainda está a anos luz do grau de desenvolvimento alcançado pelos demais países do novo mundo. Mesmo assim, algumas iniciativas merecem destaque.

A demarcação da região do Vale dos Vinhedos parecia, logo que realizados os primeiros estudos a respeito, uma tentativa pretensiosa de se criar uma borgonha tupiniquim. Pequenas propriedades determinadas a produzir vinhos diferenciados. Vários anos se passaram até decobrirem que, por mais óbvio que parecesse, a merlot é a uva que apresenta melho desempenho no local.

A Vallontano é uma das menores propriedades da região, com cerca de apenas seis hectares de vinhedos próprios. Produção personalizada. Garrafas todas devidamente numeradas. Uvas cuidadosamente escolhidas. Tanto cuidado só poderia resultar em um vinho de qualidade surpreendente ao paladar, a um preço relativamente acessível. O seu merlot - assim como os demais vinhos de seu catálogo - só é apresentado ao mercado em boas safras, o que é garantia de apresentação de um bom produto ao consumidor.

18 julho 2006

Te Fresqueia, Guri...



Vinho: Ventisquero Grey - http://www.ventisquero.cl
Empresa: Ventisquero
País: Chile
Uva: Cabernet Sauvignon
Safra: 2001
Preço: entre R$ 70,00 e 110,00
Conceito pessoal: entre quatro e cinco estrelas


Anteriormente, ao comentar sobre o Reserva da Ventisquero, não pude conter a minha alegria e a minha parcialidade. O que dizer agora deste Premium, o gran cru da vinícola chilena que mais ganha corpo no mercado internacional? A análise técnica do vinho fica em segundo plano.
Recebida de presente e guardada para uma ocasião especial, a garrafa foi aberta entre amigos, comendo um fondue em uma noite de inverno. Hora mais que propícia para a sua degustação. Para quem está acostumado com refrigerante, cerveja ou vinho de mesa, o veredito foi unânime: o paraíso existe, e devem beber isto lá. Um vinho quase completo, muito acima do nível com o qual estamos acostumados a lidar. O ponto a ser criticado é o alto preço praticado no mercado nacional. Mas também, estar no paraíso não deve ser muito barato mesmo...

Começando o Inverno

Após outro breve recesso na elaboração dos posts, volto à carga para retratar aquilo que andei aprontando neste início de inverno. Vamos lá.





Vinho: Boscato Reserva
Empresa: Boscato Vinhos Finos Ltda - http://www.boscato.com.br
País: Brasil
Uva: Cabernet Sauvignon
Safra: 2002
Preço: entre R$ 21,00 e 30,00
Conceito pessoal: entre três e quatro estrelas


Uma das estrelas ascendentes do mercado nacional, a Boscato, vinícola de origem humilde localizada na pequena Nova Pádua, na serra gaúcha, vem a cada ano surpreendendo àqueles que não levam muita fé no potencial do vinho brasileiro - assim como este que vos fala.
Notável a evolução deste cabernet 2002 em relação ao lançado no ano anterior. Ao invés daquele vinho de fraco corpo e sabor que ressaltava a acidez de um vinho jovem – mal este que assola a maioria dos vinhos nacionais – de 2001, este ano a vinícola apresentou um vinho maduro, que conseguiu equalizar os pequenos defeitos antes apresentados. Ponto negativo é o preço, que continua exagerado para os padrões nacionais.








Vinho: Pata Negra
Empresa: Bodegas Los Llanos – Grupo Vinartis - http://www.gbvinartis.com
País: Espanha
Uva: Tempranillo
Safra: 1998
Preço: entre R$ 38,00 e 45,00
Conceito pessoal: entre três e quatro estrelas



Não é muito a minha especialidade, mas como não arriscar alguns trocados em um vinho espanhol cuja safra se deu a quase dez anos atrás? Após a desconfiança inicial, resolvi arriscar. E não me dei mal.
O site do grupo Vinartis – um dos maiores da Espanha – dá destaque a este vinho produzido na região de Valdepeñas. A safra 1998 é a atualmente lançada no mercado. Muita maturação e descanso deram ao vinho uma característica surpreendente: o aroma é suave, enganando a robustez do sabor, surpreendendo positivamente quem o bebe. Excelente custo-benefício.

26 junho 2006

Outra Decepção

Vinho: 35º South
Empresa: Viña San Pedro - http://tienda.vinosdechile.cl/sanpedro/
País: Chile
Uva: Merlot
Safra: 2002
Preço: entre R$ 15,00 e 25,00
Conceito pessoal: duas estrelas


É característica dos vinhos do novo mundo, como já foi falado, a produção de vinhos mais incorpados, de sabor mais intenso e, de preferência, varietais. Esta tendência, criada e consagrada pelos produtores californianos foi muito bem assimilada, sobretudo pelos produtores chilenos, que aí descobriram sua mina de ouro.

A Viña San Pedro é a segunda maior vinícola do Chile. Dentre seus produtos mais detacados estão os Gatos Negro e Blanco – os rótulos mais vendidos no mundo – e o 35º South, que compõem sua linha básica. São vinhos oferecidos a um preço acessível e de farta distribuição no mercado nacional.

Há um tempo estava para experimentar o Merlot da linha 35º. Confesso que fiquei um pouco decepcionado. Aroma muito forte e muito encorpado. Passou um pouco do limite do razoável. Nada comparável aos grandes títulos da vinícola (1865 e Cabo de Hornos) ou aos razoáveis títulos nacionais. Acredito não conseguir chegar ao fim da garrafa.

24 junho 2006

Atendendo a Pedidos.


Vinho: Periquita
Empresa: José Maria da Fonseca - http://www.jmf.pt
País: Portugal
Uva: Castelão, Trincadeira e Aragonez
Safra: 2002
Preço: entre R$ 18,00 e 25,00
Conceito pessoal: três estrelas


Atendendo a pedidos de centenas (?) de pedidos dos leitores do blog, finalmente farei do Periquita objeto de comentário.

Trata-se da mais antiga marca de vinhos de Portugal, produzida desde 1850. Produzido nas Terras do Sado, na península de Setúbal, é a mais popular marca de vihos de mesa portugueses. Suave, frutado, de coloração leve, é especial para aqueles que não querem nada mais do que tomar um bom vinho sem compromisso.

Um pouco de cultura inútil. A Periquita deve seu nome à propriredade adquirida pelo fundador da vinícola que leva seu nome. Foi na Costa da Periquita, em Azeitão, que José Maria da Fonseca, na metade do Século XIX plantou as preimeiras mudas da uva Castelão, base do vinho hoje comercializado no mundo inteiro. Trata-se de uma das melhores opções para aqueles que querem fugir um pouco dos vinhos concentrados produzidos no novo mundo.

12 junho 2006

Recuperando o Tempo Perdido

Dado ao pequeno espaço na agenda aliado a um pouco de preguiça de escrever, passei um tempo sem atualizar este blog. Porém, devido às inúmeras manifestações de apoio e pedido de explicações da minha vastíssima gama de leitores – em torno de uma dúzia, segundo os últimos levantamentos – resolvi fazer um apanhado geral do que andei experimentando durante este pequeno recesso (P.S.: Peço desculpas pela má formatação desta postagem).



Vinho: Quinta do Crasto Douro
Empresa: Sociedade Agrícola da Quinta do Crasto - http://www.quintadocrasto.pt
País: Portugal
Uva: Tinta Roriz, Tinta Barroca e Touriga Francesa, sem demonstração de porcentagem.
Safra: 1999
Preço: entre R$ 40,00 e 65,00
Conceito pessoal: entre três e quatro estrelas
Uma das coisas boas da rede Nacional de Supermercados quando pertencia ao Grupo lusitano Sonae era a grande variedade de vinhos portugueses em oferta. Espero sinceramente que com a venda da rede para o Wal-Mart, este aspecto continue presente.
Continuando minha saga através dos vinhos da terrinha, encontrei esta garrafa do Crasto perdida em uma revenda do Supermercado Nacional a um preço baixa considerando com o da concorrência. Suave, agradável e levemente adstringente, uma boa pedida para qualquer época do ano.
Vinho: Finca La Celia Reserva
Empresa: Finca La Celia – Bodegas San Pedro - http://www.fincalacelia.com.ar
País: Argentina
Uva: Malbec
Safra: 2003
Preço: entre R$ 35,00 e 55,00
Conceito pessoal: quatro estrelas
Outro campeoníssimo da relação custo-benefício do mercado nacional Meu vinho argentino preferido, ao lado do Terrazas. Pena dedicar somente poucas palavras em sua homenagem.
Um vinho redondo, perfeito para acompanhar desde o trivial dia-a-dia até ocasiões especiais, sem fazer feio. Aroma de frutas e sabor discreto, caractrísticas presentes em toda a linha da vinícola (La Consulta, Magallanes e Angaro). Premiado internacionalmente. Sempre mantenho em estoque algumas garrafas para consumo imediato.
Vinho: Sunrise
Empresa: Concha Y Toro - http://www.conchaytoro.com
País: Chile
Uva: Merlot
Safra: 2002
Preço: entre R$ 16,00 e 25,00
Conceito pessoal: três estrelas
A linha Sunrise da Concha Y Toro já foi objeto deste blog. Sempre presente nas melhores (e piores também) casa do ramo, é um campeão de vendas.
À primeira vista não me agradou muito. Aroma intensamente alcoólico e sabor muito forte. Forte rubor presente, não no vinho, mas em quem acaba tomando. O melhor desta linha ainda é o Carmenére, uma das melhores opções do mercado nesta faixa de preço.
Vinho: Duetto
Empresa: Casa Valduga - http://www.casavalduga.com.br
País: Brasil
Uvas: Cabernet Sauvignon e Merlot
Safra: 2001
Preço: entre R$ 16,00 e 25,00
Conceito pessoal: entre três e quatro estrelas
Agradável surpresa. Este corte é o preferido das vinícolas nacionais – o Lote 43 da Miolo, por exemplo - já foi objeto de exame nest blog.
Não refoge à falta de corpo dos vinhos nacionais, mas o seu sabor compensa. Mais suave – e barato - que o Lote 43, é perfeitamente agradável ao ser ingerido como acompanhamento de refeições, por exemplo. Boa opção para aqueles que gostam de prestigiar os produtos nacionais.

25 maio 2006

Tentativa Válida


Vinho: Touriga Nacional
Empresa: Angheben - http://www.angheben.com.br
País: Brasil
Uva: Touriga Nacional
Safra: 2004
Data de consumo: 21.05 a 25.05.2006
Preço: entre R$ 22,00 e 31,00
Conceito pessoal: entre duas e três estrelas


Portugal descobriu tardiamente uma de suas maiores riquezas. Depois de tanto tempo priorizando os Vinho do Porto e Madeira, os vinhos de mesa, sempre relegados a segundo plano pois tidos como rústicos, passaram a ter o sua devida valorização. A característica principal dos vinhos portugueses de mesa, e isso não é segredo de ninguém, é a sua elaboração a partir de uvas chamadas autóctones, ou seja, que se desenvolvem apenas em seu território.

Desenvolviam! Após um estudo realizado sob encomenda da americana Almadén na década de 1970, descobriu-se que a campanha gaúcha servia para a produção de uvas vinícolas, dentre as quais as autóctones lusitanas. Aproveitando-se disso, várias empresas nacionais, dentre elas a Angheben, de Bento Gonçalves, aportaram na região, sobretudo nos Municípios de Encruzilhada do Sul e Lavras do Sul para o cultivo dessas vinhas.

O touriga nacional da Angheben é uma tentativa válida da produção gaúcha de vinhos tipicamente portugueses. No entanto, essa primeira safra posta no mercado deixa a desejar. Vinho muito bruto, dando a sensação de ainda ser muito jovem para o consumo. Segundo palavras de um amigo, lembra um pouco vinho de garrafão. Está ainda abaixo de outras similares nacionais, como a Miolo Seival Castas Portuguesas.

Nada está perdido, no entanto. A vinícola é nova, fundada apenas em 1999, e os outros vinhos de seu cartel são de boa qualidade. A conclusão que chego, por enquanto, é que vinho português bom mesmo é o feito em Portugal.